Quinta-Feira, dia 01 de Outubro de 2020
Director - Pe. F. Caetano Tomás
Links Eventos AFAUCSSR Assinar Edições
Como é a minha terra

Outubro de 2020

Como é a minha terra

Nome, Idade e atividade na Instituição?

Chamo-me Joaquim Martins Ramos, tenho 68 anos, e sou natural da Aldeia da Dona, Concelho do Sabugal, Distrito da Guarda. O meu primeiro contato com a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, vem já desde 1968. Quase 6 anos foram passados na Casa de Saúde de S. Rafael como Enfermeiro, responsável pela Unidade Ir. Sinforiano, entre dezembro de 1983 e Julho de 1989. Passados 29 anos, regressei a esta Casa, vindo de África-Moçambique.

Há alguns anos, viveu e trabalhou na Casa de Saúde São Rafael. Pode-nos falar sobre essa época?

Com 31 anos, estávamos numa época agitada socialmente, influenciada pelos cravos de abril de 1974, que também influenciou todos os recantos da Casa… Os estragos do sismo de 1980 ainda estavam visíveis e muito vivos na memória. O Diretor de então, mandou-me chefiar a Unidade Ir. Sinforiano e la fui.
Era uma unidade de longo internamento, que recebia pessoas com doença mental, deficiências e demências, umas jovens, outras de meia idade ou idade avançada. A maioria tinha autonomia, outras tinham autonomia relativa, com algumas patologias somáticas compensadas, não requerendo cuidados especiais. Não havia pessoas acamadas. O paradigma assistencial do cuidar predominante, era ainda o modelo médico, com alguma preocupação com o social, sobretudo o familiar. Nesta unidade, prestavam serviços 2 Irmãos, 1 Enfermeiro, um grupo de auxiliares, um médico psiquiatra, um médico de clinica geral, e 1 médico neurologista quando solicitado. Havia também uma psicóloga e uma assistente social para toda a Casa.
Visto à distância de mais de 30 anos, e com os conhecimentos de hoje, não devemos ter vergonha desse tempo. A pessoa assistida era o centro de referência desta Casa. O respeito pela dignidade e a sacralidade da pessoa, estavam como hoje estão presentes. O resto são estratégias e metodologias que podem mudar com os tempos, e os conhecimentos que se vão adquirindo progressivamente.

Regressado neste quadriénio 2018/2022, que diferenças encontrou?

Muitas e a todos os níveis: Termos um Diretor do Centro e Diretor Administrativo ambos leigos, recursos humanos diferenciados, algumas estruturas renovadas e outras feitas de raiz, equipas multidisciplinares, organização da pastoral da saúde e animação, planos de cuidados individualizados, residências de treino de autonomia, equipas de apoio domiciliário, medicação em unidose em todo o estabelecimento, processos clínicos informatizados, certificação de qualidade, empresa externa na cozinha, com serviço de refeições individualizadas, empresas externa de limpezas nas unidades e áreas gerais.
Por outro lado, uma população mais envelhecida, alguns em cuidados continuados, outros em paliativos, com uma maior recorrência ao Hospital geral.
Estamos agora perante uma visão social integradora e inclusiva, que não se fecha nas estruturas arquitetónicas, por mais modernas e funcionais que sejam. Mas não deitemos foguetes. Daqui a trinta anos, encontraremos estranho o passado, e surgirão outras inovações, que a esta distância não conseguimos vislumbrar.

Como é que via nessa altura a relação entre a CSSR e a comunidade local?

Era a possível e normal para a época. O preconceito e o estigma estavam ainda muito presentes.
De qualquer modo, da nossa parte havia abertura ao exterior, sobretudo com a passagem de filmes no anfiteatro, com a presença dos vizinhos, adultos e crianças. Também a nível da Pastoral, para além dos atos litúrgicos, organizávamos a catequese, a primeira Comunhão e a Comunhão Solene.
Alguns dos utentes saíam à cidade e conviviam com a população, captando a estima e apreço de muitas pessoas na Cidade e na Ilha.

E atualmente?

O conviver e socializar é inerente ao ser da pessoa, por isso é normal a convivência com a comunidade. Por outro lado, a pessoa com as suas fragilidades e doenças, continua a ser cidadão, com direito a cidadania e correspondentes manifestações dessa cidadania. Faz parte do processo de normalização, conviver e interagir socialmente, participar na cultura e outras celebrações. Isso acontece!

Impulsionou nessa altura uma publicação interna de seu nome “Abre-te Caco Açoriano”. Em que consistia?

O “Abre-te Caco Açoriano” era uma réplica do “Abre-te Caco “de uma das unidades da Casa de Saúde de Barcelos. Tinha subjacente, a filosofia de dar oportunidade às pessoas residentes dessa Unidade, de poderem escrever ou ditar aquilo que quisessem dizer, sem modificação da mensagem nem do estilo da linguagem. Era distribuído de mão em mão pela cidade, por um dos utentes desta Casa. Tinha um logotipo de uma cabeça com o crânio aberto, como a querer dizer que deveríamos ser pessoas de mente aberta, pensantes, com horizontes largos!

Quais as suas responsabilidades atuais na Casa de Saúde?

Responsabilidade Carismática referente à missão, e responsabilidade relacionada com a Pastoral da Saúde e Animação, partilhada com toda a equipa multidisciplinar que a constitui.

O que faz na Equipa da PSA?

Uma equipa supõe liderança, que para os tempos de hoje é uma liderança participada, onde todas as visões e pareceres são válidos. Como responsável, procuro animar a Equipa da Pastoral e Animação, de modo a tentar que se leve por diante as atividades programadas. Aproveito a ocasião para os elogiar e agradecer a todos os demais.

A sua experiência em África marcou-o? Em que sentido?

Muito mesmo! Nunca pensei que um dia iria para África-Moçambique! Em 2004, alguém me perguntou se eu já tinha ido alguma vez a África, ao que respondi que nunca tinha ido. A coisa ficou por aí, até que passados sete anos, a mesma pessoa, e os Superiores Maiores de Portugal, decidiram enviar-me para Moçambique. Mais do que dar recebi, e recebi muito. A Filosofia simples de vida, a alegria das pequenas coisas, a dança sem música, os sorrisos alegres, a felicidade apesar da pobreza e miséria, a fé.

Como vê a Casa de Saúde São Rafael no futuro?

Vejo-a como um sonho que se vai realizando, e transformando-se em novos sonhos. Aberta a um porvir, que não é programável, mas que acontece! Vejo-a como Casa, lugar de pertença, lugar onde as pessoas são cuidadas, respeitadas na sua dignidade, e podem sonhar com um porvir positivo. Onde podem expressar os seus sentimentos, e entrar num processo de transformação interior para a liberdade, autonomia e o gosto de viver, mesmo experimentando as suas fragilidades! Mais do que uma estrutura arquitetónica bem programada, vejo-a como uma Casa que sabe avançar criativamente, procurando dar respostas inovadoras a cada pessoa, nas suas múltiplas circunstâncias sociais e de saúde. Um lugar no qual os profissionais se identificam, e podem ser eles mesmos com os seus sonhos pessoais e profissionais, partilhando e disponibilizando conhecimentos para bem cuidar a pessoa.

Pode deixar alguma mensagem para os nossos utentes e leitores?

Numa época de tanta verborreia e de verbo vazio, a melhor mensagem seria: Escutem o silêncio! Em tempo de confinamento coronavírico, em que existem tantos mégafonistas e charlatões de promessas duvidosas, mesmo na área da saúde, a mensagem seria: Por favor calem-se! Haja Saúde!
Para os de Casa: O sonho comanda a vida! Sonhe e Acredite! Cada qual com delicadeza, diga o que tem para dizer. Sugerir, elogiar, opinar, participar, colaborar, agradecer, é um modo muito simples, de contribuir para que o porvir aconteça na nossa CASA, com surpresas, com as quais nos podemos surpreender. A nossa “Casa” é mais do que as quatro paredes! A verdadeira Casa é o lugar, espaço, com o qual nos identificamos, onde nos sentimos bem, podendo ser nós mesmos, e sonhar!



Retroceder

1

Temas da última edição

O irresponsável

Redacção e Administração:
CASA DE SAÚDE S. RAFAEL
Caixa Postal: 9701-902 Angra do Heroísmo
Telefone: 295204330
Propriedade:
Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus - Casa de Saúde S. Rafael
Contribuinte N.º: 500927731
N.º Registo do título: 100460
Director:
Redactores:
Marco Pavão, Mónica Morais e Leonor Brás
Tiragem Bimensal:
1000 exemplares Impresso na Tipografia Moderna - Jaime Cruz - Artes Gráficas, Lda. Angra do Heroísmo


Contador grátis Web Development - Via Oceânica 2009 - Todos os Direitos Reservados Email - cssr.angra@isjd.pt