Segunda-Feira, dia 02 de Agosto de 2021
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Junho de 2021

“Pegados da cabeça”

Na fila em que eu aguardava, duas senhoras dialogavam, sem pressa, com gosto. Uma delas referiu-se a uma cunhada. “Ai qu’ela! A minha cunhada está pegada de cabeça” (mais ou menos assim). Apurei o ouvido e esperei pela referência a S. Rafael. Não tardou. “Ela está é a modos d’ir p’ra Sam Rafael” (mais ou menos assim).
Ora que o povo é criativo, já sabemos. Na ilha, “pegado de cabeça” pode significar muita coisa. Na vida comum, não deixa de ser um rótulo, feiozinho, atarraxado a pessoas que podem estar a sofrer perturbações mentais. Seria bom que em vez de sinalizarmos alguém como “pegado de cabeça”, ajudássemos essa pessoa a procurar ajuda, o quanto antes melhor. Em saúde mental o tempo conta.

Abunda o calão e expressões idiomáticas na nossa língua para nos diferenciarmos de outras pessoas. Vejamos: “cabeça de alho chocho” “cabeça de abóbora” “cabeça de burro” “cabeça no ar” “cabeça de giz” “cabeça de alfinete” “cabeça de vento” “cabeça oca” “cabeçudo” “cabecinha de galinha” e “pegado de cabeça”; são exemplos.

As perturbações mentais, a doença mental, pode acontecer de forma repentina, como surto, mas muitas vezes ela vai ganhando terreno, de forma insidiosa. A doença mental, em regra, não ocorre de um dia para o outro. Rotular as pessoas e distanciar-se delas, ignorá-las e tornar-se indiferente, pode tornar uma personalidade pré-mórbida (pré-patológica, pré-doença mental) das quais damos exemplos de personalidades introvertidas, solitárias, pouco sociáveis, fantasistas, estranhas e excêntricas, até, numa pessoa com doença mental, inicialmente aguda, com possibilidade de remissão dos sintomas da doença, mas que pode evoluir para que a doença se instale e se torne crónica, com difícil remissão dos sintomas e cura.

Adoecer mentalmente é um processo que se desenvolve no tempo, e que se alimenta por diversas circunstâncias negativas. Reabilitar mentalmente é um processo que se desenvolve no tempo, e que se alimenta de um conjunto de circunstâncias positivas.

Fica aqui o desejo de que as pessoas, em família, em comunidade, em sociedade, não diminuam ou branqueiem as perturbações mentais, a doença mental, mas considerem esta área da saúde/doença, uma área como todas as outras da medicina e das ciências da saúde, como fundamental para a dignidade humana, e para o bem-estar e felicidade de todos.

Adelino Manteigas, Enf. Especialista ESMP

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